terça-feira, 8 de março de 2011

a transformação tem que ser quântica e não orgânica

Publicado no BLOG nós da comunicação - adaptação a outro contexto é minha.

No início do ano eu encontrei com um colega que contou os desafios que ele estava passando na empresa em que trabalha. Ele atua na área de comunicação de uma organização que está passando por um penoso processo de aquisição/fusão. Lá pelas tantas, ele soltou a frase que motivou este texto. Ele disse que a empresa tem um business plan detalhado e muito bem definido, repleto de métricas de curto e médio prazos. Os controles são rígidos e os processos passam por revisão rigorosa. Também existe um plano de comunicação muito detalhado, com objetivos e métricas estabelecidas, ou seja, todo o passo-a-passo está definido. Neste cenário, o meu colega comentou que as duas empresas têm culturas diferentes e que não será possível fazer as grandes transformações necessárias pelos caminhos tradicionais. Será preciso inovar. Tem que pensar diferente, e tomar decisões de risco, pois a transformação tem que ser quântica e não orgânica. Contudo, o plano desenhado não contemplava nada no sentido de tomada de riscos. Aliás, era o contrário, o plano era bem tradicional.

Foi exatamente neste momento que pensei no conceito que aprendi no livro "Onipresente" de Ricardo Cavallini e que nunca mais esqueci. Aí vai...

Qualquer empresa pode se cercar de boas práticas, conhecimento, pesquisas, mil planos, etc. Mas inovar significa experimentação e risco. A cultura do "business plan" foi criada e amadurecida para entender o risco, mas acabou virando apenas uma forma de evitá-lo a todo custo. Aceitar o risco significa sair do ambiente de resultado garantido para buscar um resultado acima da média. Soa quase impossível inovar e conquistar saltos quânticos com planos "papai-e-mamãe". Um plano cheio de métricas vai levar você a se concentrar nas métricas. Quanto mais métricas, mais amarrado a elas você fica. Atender às métricas passa a ser o seu objetivo maior, esquecendo outras possibilidades. No fim de tudo, você se acomodará em atendê-las.

No ambiente corporativo, este conceito é ainda mais evidente. As empresas não esperam que seus profissionais sejam "papai-e-mamãe". Elas esperam profissionais ousados, que pensem diferente, que adorem experimentação e risco, que desafiem constantemente os tais "planos", que gostem de olhar para frente em vez de olhar para trás, que sejam autodidatas e criativos. Além disso, as empresas também esperam que eles entendam os objetivos e os negócios, que sejam estratégicos e visionários. Enfim, em qualquer empresa, não importa o tamanho ou o segmento econômico, o profissional tem que ser aquele que incomoda, que inspira e que faz as pessoas sonharem além dos objetivos e das estratégias da companhia.

Agora, fala sério comigo. Você acredita que uma empresa com um plano superdetalhado, repleto de métricas e controles, com seus profissionais sobrecarregados de trabalho com metas de curto e médio prazos, tem chance de pensar em saltos quânticos de inovação? Parece difícil. Inovação significa soltar as amarras da organização. Que fique claro, eu não estou dizendo que ter um plano detalhado é ruim, aliás, é muito bom, mas o excesso de controles e métricas normalmente é muito danoso.

Em resumo, eis os três pontos que quero destacar:

1 - Caso você trabalhe sob um "business plan", meu recado é que você não se satisfaça com ele. Não fique totalmente amarrado a um plano que não vai permitir a você experimentar e se arriscar.

2- Não se contente com as "best practices". Implementá-las nas empresas pode significar apenas implementar algo que já foi feito, com resultados já esperados, porém pode ser que não seja realmente inovador. Alguns mais extremados dizem que o foco nas "best practices" é o caminho da mediocridade. Eu não penso desta forma, mas definitivamente "best practices" significa copiar ou adaptar algo que alguém já fez, tentou, e aparentemente deu certo. Introduzir uma "best practice" pode ser SIM inovador para uma empresa ou área que nunca pensou naquilo, mas não se acomode com elas. Tente criar as suas práticas.

3- O profissional tem que ser ousado, questionar sempre, desafiar o "status quo" e não se satisfazer com as "best practices" e "business plans" da vida.

Por fim, não venha você me dizer que trabalha numa empresa pública, ou numa pequena empresa, e que nela você não consegue inovar ou propor algo diferente. Esqueça isso. Espaço para propor, criar e testar coisas novas sempre existe. É uma questão de atitude e engajamento individual. É claro que em algumas empresas isso fica mais difícil, mas espaço para inovação é possível em todos os lugares.

Avalie o seu perfil de profissional como o perfil de um investidor. Podemos pensar em carreira como investimento. Afinal, qual é o seu perfil de profissional? Conservador, moderado ou agressivo? Olhando os três pontos acima, como você se auto-avalia?

Por sinal, falei para o meu colega que eu não acreditava nos planos da empresa dele. Ou, pelo menos, que ele não deveria se satisfazer com o que tem nas mãos.


Mauro Segura é diretor de Marketing e Comunicação da IBM Brasil. as modificações são minhas. Acredito que o pensamento do autor não deve ficar restrito aos profissionais de comunicação e marketing .Ele serve para todos a organização.

Um comentário:

  1. Muito bom o texto. Fico feliz em saber que o novo Presidente do Ciasc pensa dessa forma. Isso é muito importante para dar uma nova energia para Santa Catarina, e fazer com que a Tecnologia seja a grande aliada da gestão pública e traga inovação para nós Catarinenses. Quem sabe acabamos nos posicionando como um dos estados mais inovadores do país? Parabéns!

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