sábado, 2 de janeiro de 2010

Para iniciar o ano

Para iniciar bem um ano que sempre começa em feriado nada melhor do que o texto da Rabino Nilton Bonder sobre o descanso.

Toda sexta feira a noite começa o shabat para a tradição judaica.
Shabat é o conceito que propõe dencanso ao final de um ciclo semanal de produção, inspirado no descanso divino, no setimo dia da criação.
Muito alem de uma proposta trabalhista, entendemos a pausa como fundamental para a saúde de tudo o que é vivo.
A noite é pausa, o inverno é pausa, mesmo a morte é pausa. Onde não há pausa, a vida lentamente se extingue.
Para um mundo no qual funcionar 24hs por dia parece não ser suficiente, onde o meio ambiente e a terra imploram por uma folga, onde nós mesmos não suportamos mais a falta de tempo, descansar se torna uma necessidade do planeta.

Hoje, o tempo de "pausa" é preenchido por diversão e alienação.
Lazer não é feito de descanso, mas de ocupações "para não nos ocuparmos".
A propria palavra entretenimento indica o desejo de não parar. E a incapacidade de parar é uma forma de depressão. O mundo está deprimido e a industria do entretenimento cresce nessas condições.

Nossas cidades se parecem cada vez mais com a Disneylandia. Longas filas para aproveitar esperiencias pouco interativas. Fim de dia com gosto de vazio. Um divertido que não é nem bom nem ruim. Dia pronto para ser esquecido, não fossem as fotos e a memória de uma expectativa frustrada que ninguem revela para não dar o gostinho ao proximo.

Entramos no milenio num mundo que é um grande shopping. A internet e a televisão não dormem. Não há mais insonia solitária; solitário é quem dorme.

As bolsas do ocidente e do oriente se revezam fazendo do ganhar e perder, das informações e dos rumores, atividade incessante. A CNN inventou um tempo linear que só pode para no fim.....
Mas as paradas estão por toda a caminhada e por todo o processo. Sem acostamento, a vida parece fluir mais rápida e eficiente, masao custo fóbico de uma paisagemque passa. O futuro é tão rápido que se confunde com o presente. As montanhas estão com olheiras, os rios precisam de um bom banho, as cidades de uma cochilada, o mar de umas férias, o domingo de um feriado.....

Nossos namorados querem "ficar", trocando o "ser" pelo "estar".
Saimos da escravidão do seculo XIX para o leasing do seculo XXI -
um dia seremos nossos?

Quem tem tempo não é sério, quem não tem tempo é importante.
Nunca fizemos tanto e realizamos tão pouco. Nunca fizemos tanto por tão poucos.....

Para não é interromper. Muitas vezes continuar é que é uma interrulção.
O dias de não trabalhar não é o dia de se distrair literalmente, ficar desatento......
É um dia de atenção, de ser atencioso consigo e com a sua vida.
A pergunte que as pessoas fazem no descanso é "o que vamos fazer hoje?" - já marcada pela ansiedade. E sonhamos com uma longevidade de 120 anos, quando não sabemos o que vamos fazer em uma tarde de domingo.......

Quem ganha tempo, por definição, perde.
Quem mata tempo, fere-se mortalmente.
É este o grande "radical livre" que envelhece nossa alegria - o sonho de fazer do tempo uma mercadoria.

Em tempos de novo milenio, vamos resgatar coisas que são milenares:
A pausa é que traz a surpresa e não o que vem depois.
A pausa é que dá sentido à caminhada.
A pratica espiritual deste mileneio será viver as pausas. Não haverá maior sábio do que aquele que souber quando algo terminou e quando algo vai começar.

Afinal, porque o Criador descansou?

Talvez porque, mais dificil do que iniciar um processo do nada, seja dá lo como concluído....

Um comentário:

  1. Rufino,
    Excelente comentário, bem embasado em filosofia, teosofia, atualidades, análise de conjuntura e prospectiva, que em última análise, são as chaves do pensamento estratégico pós-moderno.
    Forte abraço.

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